sábado, 18 de junho de 2022

Comer e beber com(o) Eça


É exactamente de hoje a um mês que se inicia – e termina no dia 22 de Julho – o XXIII Curso Internacional de Verão – ou Seminário Internacional Queirosiano – organizado pela Fundação Eça de Queiroz. Com o tema, e o título, «A comida e o vinho na obra de Eça e no panorama oitocentista europeu», esta iniciativa «destina-se a todos os interessados na obra queirosiana e na área cultura-literatura-media, nomeadamente a professores (sobretudo ensino secundário), estudantes universitários nacionais e internacionais (graduação e pós-graduação), estudiosos e pesquisadores nas áreas de Ciências de Comunicação, Estudos Culturais e Literários, Turismo Literário.»
Não é necessário explicar – pelo menos a um leitor de Eça de Queiroz, mesmo que apenas casual, não inveterado – a importância que a alimentação, tanto sólida como líquida, tem na obra do escritor. «A escolha de colocar nas mesas de seus personagens os pratos e os vinhos mais ilustres da culinária lusitana caracteriza Eça», «os usos e as preferências alimentares caracterizam as personagens queirosianas». «Os sacerdotes de “O Crime do Padre Amaro” gozam duma mesa farta enquanto os pobres de Leiria passam fome, numa contraposição que chama à memória a injustiça representada por Zola, em “Germinal”, nas iguarias comidas pelos donos da mina e na escassez das mesas dos obreiros.» «A sensual Leopoldina, ainda em “O Primo Basílio”, não sabe resistir ao bacalhau de alhada que o álgido marido lhe nega; nesta perspectiva, ela lembra muito de perto a flaubertiana Emma Bovary, que cobiça o alho, os gelados, as compotas, os xaropes e os licores doces.» «O ingênuo Cruges, em “Os Maias”, constrange-se por ter esquecido as queijadas de Sintra para a pedante mãe; o estrangeirado Fradique Mendes lamenta ironicamente o assado de espeto, já desaparecido das casas portuguesas como as demais velhas tradições, enquanto o infido Teodorico saboreia, às sextas-feiras, o bacalhau da prostituta que frequenta após ter aparentado, com a velha tia, ter comido apenas pão com água. O bacalhau, de resto, é a presença constante na mesa da casa da Misericórdia, em “O Crime do Padre Amaro”, e dos convívios da alta sociedade lisboeta em “Os Maias”, enquanto outra iguaria típica, o arroz, nas suas diversas formas de favas, de forno e doce, marcam a contraposição entre o luxo sem sabor de Paris e a simplicidade genuína portuguesa em “A Cidade e as Serras”.» «Em Eça a culinária é descrita com maior cuidado em comparação com outros realistas e naturalistas europeus, e com um elemento adicional: o uso literário dos produtos típicos da gastronomia portuguesa.» «O clero ganancioso, a burguesia das intrigas amorosas, a aristocracia antiga e intolerante, a antiquada intelectualidade tardiamente romântica que ele pretende derrotar, são “pratos típicos nacionais” tanto quanto o bacalhau, o arroz doce, os ovos com chouriço, o arroz de forno; tudo isto, acompanhado por um vinho verde ou uma “lágrima” de vinho do Porto, amarga e adocica ao mesmo tempo, como o estilo do autor.»
A coordenação científica deste seminário internacional queirosiano, que terá como professoras convidadas Maria Serena Felici, Giorgio de Marchis e Mariagrazia Russo, será da responsabilidade de Orlando Grossegesse.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Novidades da Fundação

Nestes (pouco mais de) primeiros quatro meses de 2022 não faltaram novidades interessantes vindas da, ou relativas à, Fundação Eça de Queiroz - a começar, claro, pela da nomeação de um novo presidente do conselho de administração, a que já fizemos referência em Março. A 14 de Janeiro foi anunciado que a Fundação se tornara a primeira parceira (institucional) oficial da iniciativa «Acordo Zero». Entre 15 de Janeiro e 31 de Março esteve patente, na Casa de Tormes, uma exposição das primeiras edições das obras do escritor. A 26 de Março a instituição foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Baião. Abriu a 29 de Abril, e findará a 30 de Junho, uma exposição de passaportes originais de Eça de Queiroz. A 12 de Maio foi exibido, no Porto Canal, um episódio da série documental «Conversas com História-Museus» dedicado à FEQ e à Casa de Tormes.

sábado, 16 de abril de 2022

Para além das relíquias

Começa hoje, e prolonga-se até ao próximo dia 23 de Abril, a Páscoa judaica de 2022. Este é, pois, um dia adequado para, tomando aquela como pretexto, recordar e divulgar – para quem ainda não o conhece e leu – o ensaio de João Medina «Eça e os judeus» publicado em duas partes no blog Malomil a 4 e a 6 de Maio de 2016. Realçando desde logo que, e como aliás o texto refere no seu início, que quase de certeza os únicos seguidores da religião hebraica que Eça de Queiroz terá conhecido em Portugal e com quem terá convivido foram Salomão Sáraga – seu colega nas Conferências do Casino em 1871 – e Carlos Meyer – seu amigo, e colega na Universidade de Coimbra (mas em outro curso, o de Medicina) e no «grupo jantante» «Vencidos da Vida», além de inspiração-modelo para a personagem Carlos da Maia em «Os Maias».

sexta-feira, 25 de março de 2022

Tudo em família

Faz hoje precisamente um mês: a 25 de Fevereiro último Afonso Reis Cabral foi designado como o próximo presidente do conselho de administração da Fundação Eça de Queiroz, órgão a que já pertence como vogal desde 2020, para o próximo mandato de dois anos até 2024. A decisão foi tomada por unanimidade pelos seus colegas da FEQ – Ivone Abreu, José António Barros, José Luís Carneiro, Paula Carvalhal e Paulo Pereira – por considerarem que o seu colega «reúne as condições de competência e experiência necessárias ao cargo, e por assegurar a manutenção de um membro da família à frente dos destinos da Fundação.» De facto, Afonso Reis Cabral – ele próprio já com uma assinalável carreira de escritor em nome próprio, tendo inclusivamente ganho os prémios literários LeYa em 2014 (com «O Meu Pai») e José Saramago em 2019 (com «Pão de Açúcar») – é trineto do autor de «A Cidade e as Serras», e vai substituir o pai, Afonso Eça de Queiroz Cabral, na liderança da FEQ. A ler também sobre este assunto: os relatos da sucessão no Jornal de Notícias e no Público, e ainda o comentário de Maria do Rosário Pedreira no seu blog Horas Extraordinárias.

16 de Outubro: 3º Congresso Internacional Eça de Queiroz, 150 Anos

Ver Programa:  https://www.bnportugal.gov.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1830%3A3-encontro-internacional-eca-de-que...