domingo, 12 de janeiro de 2020

«O Egipto», criticamente?

Se há livro que é associado à viagem que Eça de Queiroz fez ao Médio Oriente em 1869 para, principalmente, assistir à inauguração do Canal do Suez, é «O Egipto», publicado após a sua morte. A questão da necessidade de se efectuar ou não uma «edição crítica» desta obra – assim como de outras deste escritor – tem sido debatida ao longo de décadas. Em 2016 a Relógio d’Água lançou uma versão organizada e prefaciada por Maria Filomena Mónica – autora de uma notável biografia de EdQ – que tem como (significativo) subtítulo «E Outros Textos Sobre o Médio Oriente». Recentemente perguntei a Rui Lopo, meu colega no Movimento Internacional Lusófono e também na comissão organizadora do congresso do passado mês de Novembro, se esta edição com pouco mais de três anos poderia ser suficiente para colmatar essa lacuna na investigação literária. Eis a sua resposta:
«Conheço essa edição que tem o grande mérito de recolher tudo o que o Eça "produziu" sobre o Médio Oriente. Devia ter sido a base de todos os que participaram no nosso congresso! Cito-a logo na primeira página do artigo que publicarei nas actas. Mas a Maria Filomena Mónica compilou os textos publicados pelo Eça em vida (“Os Ingleses no Egipto" – 1881, vide “Cartas de Inglaterra”) mais a "reportagem" no Diário de Notícias (vide “Notas Contemporâneas”) e os póstumos montados pelos filhos. A minha crítica incide sobre esses textos póstumos. Eu não estou a criticá-los pessoalmente. Acho que eles fizeram o melhor que sabiam e podiam: o filho coligiu e montou "O Egipto – Notas de Viagem" em 1926 e a filha transcreveu a "Alta Síria" e a "Palestina" nas "Páginas Soltas" que edita nos anos 40. Grande mérito! O que eu estava mesmo a pensar era no Carlos Reis e sua equipa que ainda não fizeram a edição crítica a partir dos manuscritos. Quanto mais tempo teremos de esperar por eles? Isto é, o filho assume no prefácio ao "Egypto" que cortou repetições, frases soltas, apontamentos, omissões, hesitações... isto é, aquilo que chamamos hoje "material em bruto". Eu acho que hoje em dia, para autores como o Pessoa, o Eça ou outros gigantes, tudo isto deve ser conhecido. Até para percebermos e aprendermos com a sua laboriosa oficina. E a Net pode ajudar a divulgar estas edições críticas – feitas com escrúpulo filológico – que naturalmente se dirigem a um público especializado. Para o grande público essa edição já disponível é óptima. Percebo que em papel seja difícil e oneroso publicar este tipo de projectos. A própria (grande queiroziana) Beatriz Berrini tentou cotejar o que o filho fez com o que o Eça escreveu e infelizmente desistiu, pela dificuldade da decifração caligráfica de textos que podem ter sido apontamentos no café, em cima de um camelo, e suas reescritas e reelaborações mais tarde na noite, no hotel Sheperd's. Uma futura edição crítica "ideal" num momento em que há muito tempo passou o prazo legal que oferece o Eça ao domínio público devia conter: fotografias de todos os manuscritos; transcrição sistemática de tudo – apontamentos soltos, tópicos, textos compostos, textos fragmentários, repetições, passagens a limpo; proposta de edição dos filhos com devida vénia histórico-crítica; nova proposta de edição dando conta de toda a fortuna crítica destes textos, cotejando todas as variantes e confrontando com os outros textos de temática conexa.» 
Enquanto essa autêntica edição crítica não é realizada, a acima citada, lançada pela RdA com a supervisão de Maria Filomena Mónica, é por enquanto talvez a melhor aproximação disponível. E beneficia ainda do facto de, ao contrário de livros posteriores publicados por aquela editora, não estar inquinada pelo dito «acordo ortográfico de 1990».

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