segunda-feira, 21 de junho de 2021

Recuperar o riso


A Sala de Convívio do Lote 398, na prática uma associação de condóminos daquele edificio nos Olivais fundada em 1976, tem desenvolvido desde então uma regular e meritória actividade cultural com a qual o Movimento Internacional Lusófono já colaborou. Também envia com frequência mensagens aos seus associados e amigos, e a mais recente, com data de 26 de Maio último, tem como tema Eça de Queiroz e o humor; mais concretamente, evoca um texto do grande escritor intitulado «A decadência do riso», escrito em 1891 e originalmente incluído em «Notas Contemporâneas», mas desta vez referenciado tal como aparece em «Crónicas e Cartas de Eça de Queiroz», uma edição da Verbo organizada por João Bigotte Chorão.
Assim reza a missiva, assinada por Fernando Murta Rebelo e Ana Cristina Henriques, da Direcção da Sala de Convívio do Lote 398… «(…) O culto de um humor sábio – que apela à esperança como força anímica – ajudará a fortalecer o espírito neste período de escassa convivência física e social. Merece ponderação o seguinte texto do cronista Eça de Queiroz: “A palavra ‘espírito’ tem sido amesquinhada; fazem-no significar as saídas picantes da conversação engraçada, o ‘bom mot’, o ‘lazzi’, a chalaça. Mas ele é uma mais alta entidade: é a crítica pelo riso; é o raciocínio pela ironia.” Como sabemos, a obra literária de Eça, como talentoso crítico dos costumes, é reconhecida quase toda, senão toda, como uma prodigiosa obra de espírito que merece ser recordada. O sedutor estilo queirosiano com a sua graça e a sua ironia convida à releitura de algumas das suas obras de fino humor que nos ajudará a recuperar “o dom augusto de rir”. (…)»
Na segunda folha da carta pode ler-se um excerto maior de «A decadência do riso», do qual se destaca: «Nós, com efeito, filhos deste século sério, perdemos o dom divino do riso. Já ninguém ri! Quase que já ninguém mesmo sorri, porque o que resta do antigo sorriso, fino e vivo, tão celebrado pelos poetas do século XVIII, ou ainda do sorriso lânguido e húmido que encantou o romantismo; é apenas um desfranzir lento e regelado de lábios, que, pelo esforço com que se desfranzem, parecem mortos ou de ferro. Eu ainda me recordo de ter ouvido, na minha infância e na minha terra, a gargalhada, genuína, livre, franca, ressoante, cristalina!.. Vinha da alma, abalava todas as vidraças de uma casa, e só pelo seu toque puro, como o de ouro puro, provava a força, a saúde, a paz, a simplicidade, a liberdade! (…) Qunto mais uma sociedade é culta mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artística, que matou o nosso riso (…). Queres um humilde conselho? Abandona o teu laboratório, reentra na Natureza, não te compliques com tantas máquinas, não te subtilizes em tantas análises, vive uma boa vida de pai próvido que amanha a terra, e reconquistarás, com saúde e com a liberdade, o dom augusto de rir.» O apelo a que se abandone o laboratório e que se reentre na Natureza será, não muito tempo depois, retomado e desenvolvido em «A Cidade e as Serras».  

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Contraste entre o citadino e o campestre


Quase dois anos depois de, no blog Delito de Opinião, ter evocado e elogiado «Os Maias», Pedro Correia, no mesmo (ciber)espaço, analisou mais uma obra de José Maria Eça de Queiroz: «A Cidade e as Serras»
… Que para aquele jornalista «é um romance construído em perfeita simetria: a metade inicial decorre em França, a segunda em Portugal com breve regresso do narrador a Paris quase no fim, sendo as duas partes intervaladas por uma divertida intromissão em terras espanholas, na mais famosa viagem de comboio da nossa literatura. Que culminará na entrada de Jacinto no país dos seus ancestrais, cruzando a fronteira em Trás-os-Montes. (…) É um Eça antigo e um Eça novo que aqui encontramos em simultâneo. O primeiro, na deliciosa descrição da parasitária fauna social parisiense, que tanto inspirava a lisboeta. Juntam-se ao jantar na sumptuosa residência de Jacinto, situada no n.º 202 dos Campos Elísios, desfilando no magnífico capítulo IV do livro. (…) O segundo Eça, inesperado, é um escritor rendido ao singelo encanto do Portugal profundo, por antonomásia figurado nas Serras do título. O romancista já não sente fervor iconoclasta e anseia pelo retorno aos bens mais simples. Este contraste torna-se evidente em dois repastos: o sofisticado jantar dos Campos Elísios, tendo como convidado de honra o Grão-Duque Casimiro, e a ceia rústica improvisada em Tormes, com a mesa iluminada por “duas velas de sebo em castiçais de lata”: caldo de galinha com fígado e moela, arroz de favas, frango assado no espeto com salada recém-colhida da horta. Duas das mais célebres refeições da literatura portuguesa.»
Prova indesmentível, inquestionável, da importância fulcral de «A Cidade e as Serras» na vida, na obra, no legado, no mito de Eça de Queiroz é a de que este romance, que constitui um (grande) desenvolvimento do conto «Civilização», ter também sido inspirado pela visita a um local que, cerca de um século mais tarde, se tornaria a sede da fundação com o seu nome, a sua perene casa em Portugal: a verídica, factual (quinta de) Tormes, a (não tanto) fictícia «Torges» na sua primeira aparição. E a breve distância, no cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião, está o autor em jazigo de família sepultado, como que numa conclusão da corporização do contraste entre o citadino e o campestre.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

200 anos de CB


Hoje, 9 de Abril de 2021, assinalam-se e celebram-se os
 200 anos do nascimento de Charles Baudelaire. Um escritor que é um dos que mais admiro, tanto que «As Flores do Mal» está na lista dos 20 livros mais importantes da minha vida, que «A Invenção da Modernidade – Sobre Arte, Literatura e Música» (colectânea portuguesa que reúne, traduzidos, os seus textos críticos e ensaísticos mais importantes) foi escolha e destaque num dos meus «balanços» culturais quadrimestrais, e que ele próprio foi inspiração e assunto de um poema redigido por mim depois de uma viagem a Paris em Agosto de 2011, e incluído num livro que (como outros) está por publicar.
Um autor com um trabalho que resistiu ao «teste do tempo», caracterizado por uma qualidade e uma importância que se mantêm incontestáveis, pode sempre ser evocado e abordado por uma multiplicidade de pretextos e de perspectivas. No caso de Charles Baudelaire há, por exemplo, a influência que ele teve em José Maria Eça de Queiroz, expressa principalmente na figura de Carlos Fradique Mendes. O saudoso Vasco Graça Moura, em crónica de 2012, alude ao «dândi» que supostamente fora amigo do poeta francês. Ana Rocha deu no Centro Nacional de Cultura, entre final de 2017 e início de 2018, uma conferência em três partes sobre as ligações entre os dois grandes vultos das letras, ligações que foram também o tema de uma tese elaborada por Antonio Augusto Nery.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Queiroz «cancelado»?


Não é novidade que os novos «inquisidores» adeptos do «politicamente  (in)correcto» e que praticam o revisionismo histórico-cultural-literário podem fazer «alvos» de tudo e de todos. Assim, não é de surpreender que também José Maria Eça de Queiroz tenha sido, e recentemente, colocado na «mira» deles, para um eventual, próximo, «cancelamento», parcial ou mesmo total.  
Helena Matos, no blog Blasfémias, deu a 7 de Março último o alerta e fez soar como que um «alarme». Referindo-se a uma notícia saída no Observador, a historiadora e comentadora considera que «era mesmo o que faltava: a Associação de Professores de Português considera que uma leitura de “Os Maias”, de Eça de Queiroz, implica a análise dos preconceitos raciais do discurso narrativo e das personagens, assim como inserir esse discurso no contexto histórico. Bastou que uma esperta qualquer numa universidade dos EUA fizesse uma apreciação sobre “Os Maias” para que logo aqui na pátria se desatasse a falar dos preconceitos raciais do discurso narrativo e das personagens d’”Os Maias”. E porque não contextualizar os preconceitos sobre as espanholas, as beatas ou os meninos vestidos de anjos? E o que fazemos à “Odisseia”? Ao Camões? Ao Fernão Mendes Pinto? Ao Pessoa? Ao Camilo?.. Querem literatura de manual político, feita a pensar nos comissões disto e daquilo? Escrevam-na. Será uma bosta mas é afinal isso o que sabem fazer.»
O assunto foi novamente abordado pelo Observador, no passado dia 12 de Março, mas dessa vez no seu canal de rádio e através de um debate em que participaram Francisco José Viegas e Luís Filipe Redes. (Também no MILhafre.)

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Casas listadas para serem contactadas


Enviei ontem a João Português, Presidente da Câmara Municipal de Cuba, e ainda para outras pessoas daquele municipio, para a Direcção Regional de Cultura do Alentejo, para a Associação Cultural Fialho de Almeida e para (um membro da Direcção d)a Associação Portuguesa de Escritores uma mensagem de correio electrónico contendo, em ficheiro anexo, um documento com uma lista elaborada por mim das casas de escritores de língua portuguesa actualmente existentes, abertas ao público e com evidente (mesmo que mínima) actividade cultural. Esta lista pretende ser o ponto de partida do início da formação da Rede de Casas de Escritores de Língua Portuguesa, um projecto que delineei em Outubro de 2019 e cuja liderança eu e o Movimento Internacional Lusófono oferecemos à CMC através do Museu Literário Casa Fialho de Almeida. Após mais de um ano de espera, a 5 de Janeiro último aquele autarca alentejano finalmente respondeu-me, e positivamente.
A lista inclui uma casa em Angola, oito no Brasil e quase 30 em Portugal, mas, como é óbvio, não se pretende que seja definitiva, não só porque podem existir casas que eu não encontrei durante a minha pesquisa mas também porque existem outras – tomei conhecimento de pelo menos três (duas no nosso país, uma no país irmão) – em (avançado) processo de concretização. Evidentemente, e como seria de esperar, várias épocas e diversos estilos literários têm «representação» na lista. Por exemplo(s): o século XVIII, dito o das «Luzes», conta com a casa em Setúbal onde nasceu Manuel Maria Barbosa du Bocage; os anos de Oitocentos destacam-se, inevitavelmente, por José Maria Eça de Queiroz – através da quinta em Tormes que é a sede da fundação com o seu nome – e ainda por contemporâneos como Júlio Dinis, Antero de Quental e Sousa Martins; e, previsivelmente, o século XX é o que dispõe da maior «representação», tanto em Portugal como no Brasil, devido a nomes como José Régio, José Saramago, Erico Veríssimo e Jorge Amado. (Também no MILhafre e no Ópera do Tejo.) 

16 de Outubro: 3º Congresso Internacional Eça de Queiroz, 150 Anos

Ver Programa:  https://www.bnportugal.gov.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1830%3A3-encontro-internacional-eca-de-que...